Não havia nenhuma sirene. Naquela noite abafada.O carro freou bruscamente, deixando marcas de pneu no asfalto.
Abriu a porta. E saiu gritando: "Ajuda", "Ajudem", "Aqui".
Na parte de traseira, alguém estava morto.
A princípio ninguém ligou. E por que ligariam? Por que alguém daria a mínima? Então ninguém deu.
Só alguns poucos daquele amontoado sujo e desdentado. Aquelas pessoas tão fétidas que os outros preferiam esquecer que elas são, de fato, PESSOAS. E não que algum dia foram. Elas, teoricamente, ainda são.
Saindo da multidão. Que se esparramava e caía, na sarjeta, e que gemia, e rastejava. Da multidão cariada e esquecida.
E uma delas, uma velha senhora, mancando, com uma visível lepra, ou cancro que lhe corroía pernas, flores avermelhadas, arroxeadas, de pele, brotando aqui e acolá. Ramalhete de dor e vermes. Segurando nas mãos calejadas - e sem um dedo - um papelzinho roto com um número, como se fora um talismã.
"Dotô. Chegou minha vez?"
Ele parou por um instante. Limpou o suor do rosto. Olhou em volta, sem saber para onde. Enquanto traziam uma maca, não se sabe também de onde. Daquelas com rodinhas.
E colocou a mão no ombro da senhora, os olhos cansados e fixos nele, tranquilizando-a:
"Tua hora vai chegar"
E depois, sem tempo para olhar para trás:
Cruzando as portas do hospital. Que fecharam-se rapidamente às suas costas. Como que para evitar uma súbita contaminação.
Correndo.
Correndo.
E girando.
Girando e correndo.
Pelos corredores de luzes hesitantes.
O que daria a ele o direito de entrar? E não aos outros? Que sublime mistério era este. Seria a sua convicção? Seu desespero? Não se sabe. Estava bem vestido.
Uma porta a sua frente escancarou-se de repente.
Vislumbrou alguém. Uma mulher, pernas abertas, o braço pendendo para fora da cama, preso a alguns tubos enrolados. As pernas abertas, numa obscena e imunda explosão. Como se alguém tivesse introduzido uma granada. Uma pequena granada. Em sua vagina.
Um médico, segurando de ponta cabeça uma boneca disforme, sangrenta e roxa. Que não era uma boneca, era um bebê. Os beicinhos tortos. Os bracinhos moles Os olhos fechados e mortos.
E o médico chorava copiosamente. E balbuciava, espumando pela boca: "O bebê não chora..." "O nenê não CHORA!"
E prosseguiu introduzindo um dedo no pequeno ânus. Pra ver se conseguia alguma reação. QUALQUER reação.
Mas ELE nem prestou atenção nisto. Nem quando o médico pegou aquela trouxinha mole. Aquele pedacinho de gelatina mole e podre e roxíssima. E segurando por uma perninha, começou a batê-la violentamente contra um balcão. Como um açougueiro amaciando um pedaço de carne.
E viu muito menos, quando só depois disto, um ou dois enfermeiros tentaram impedir o médico, e este, chorando como uma histérica, enrolou-se no chão, em posição fetal e começou a chupar o dedão. Com as luvas sangrentas.
Não viu porque já estavam:
Correndo.
Correndo.
E girando.
Girando e correndo e cantando.
Pelos corredores de luzes faiscantes.
Um dos que corriam ao seu lado. A maca, desviando miraculosamente de dezenas, milhares de doentes que andavam para lá e para cá, como zumbis. Esperando o colapso profano de seus corpos atordoados. Falou:
"O médico de plantão... enlouqueceu."
"Eu sou médico" - disse o homem.
"E eu também" - riu o faxineiro, que corria ao lado.
Alguém poderia ter duvidado. Pois ele estava bem vestido. Paletó e gravata. Mas não estava vestido de branco. Mas o hábito não faz o monge. Dizem. Então por que todo maldito médico se veste de branco?
E à corrida se juntaram duas cadeiras de rodas. Com dois velhos. Um paralítico. A sonda balançando vigorosamente e espalhando um soro turvo , refrescando o rosto dos competidores.
Correndo.
Em círculo.
Pelos intermináveis corredores.
Pelos corredores de luzes alucinantes.
Driblando bandejas, com amostras de fezes, exames de urina, coletas de esperma.
Um "milk-shake" doentio de fezes, urina, semên, sangue e lágrimas.
E alguém poderia facilmente admirar-se.
Se ainda existiam pessoas, assim. Daquelas que fariam qualquer coisa por você. Sem jamais terem te visto. Trocado algumas palavras. Sem nem saber o teu nome. E pensar naqueles que ainda esperavam lá fora. Que não podiam pagar. E imaginar se quando fazem alguma coisa por você. Só o fazem porque estão lucrando de alguma forma com isso. Será que te ajudarão, no dia em que você não puder mais de alguma forma, pagar?
E imaginar se alguns pagam com favores sexuais. Se não seria ético pagar com favores sexuais. Aquele que salvou sua vida. Afinal, se salvaram a sua vida. A SUA PRÓPRIA VIDA. Você então estaria devendo a sua vida. Não?
Até que chegou o inevitável final da linha.
Beco sem saída.
E começou a dar ordens. A voz potente. Firme. Não hesitava. E ninguém desobedeceu.
Colocou luvas, uma máscara. óculos de proteção.
Nem lavou as mãos...
E todos estavam muito agitados. Indo para lá e para cá. Obedeciam as ordens, daquele tão decidido em salvar uma vida. Mas ao mesmo passo, pareciam não entender muito bem o que era ordenado.
E o que o maldito faxineiro. Um senhor negro, magrinho. Estava fazendo lá???
Falava alto. Ordenando o caos.
E uma enfermeira olhava para ele. E ouvia a voz, máscula, decidida. E viu o rosto, e ocorreu-lhe que era tão bonito que podia muito bem ser homossexual. Embora uma coisa não tivesse nada a ver com outra, não é? E era forte. Alto. Talvez um pouco grisalho demais. E sentiu uma forte atração sexual por ele.
Esqueceu-se até mesmo que era mãe. De dois pequenos e cruéis diabinhos. E esqueceu-se que era casada. E esqueceu-se até mesmo que não era tão atraente assim. Uma a mais. Na multidão. E esqueceu-se como todos esquecem. Sem remorsos. E seu olhar estava fixo no dele. E sentiu um calor. E queria tocar os próprios genitais. E esfregá-los. E sem perceber, já o estava fazendo, por cima das roupas.
Olhos fixos no dele.
E ele arriava as calças, retirando um enorme membro, rijo, pulsante, enquanto ela subia na maca. Pip. Pip. Pip. Faziam aquelas maquininhas infernais.
E a possuiu ali mesmo, em cima do morto. Os peitos moles, pulando para cima e para baixo, com as rápidas investidas. Com todo mundo olhando. O faxineiro, se masturbava ali, com um sorrisinho cínico nos cantos dos lábios.
E ela quis que ele colocasse o estetoscópio, para ouvir o pulsar de seu coração.
E apenas quis.
E imaginou.
Talvez. Porque nada daquilo aconteceu.
Eram apenas cancerígenos sonhos. Devaneios e alucinações.
Metástases de ilusões.
Ele apenas falava cada vez mais alto com ela. Para que buscasse a epinefrina, 500 cc., ou a norepinfrina, ou as endorfinas. Loucas anfetaminas, litros e litros delas, louca adrenalina.
Ao que outra enfermeira, mais experiente, veio e aplicou as injeções corretas no morto. Dizendo:
"Não ligue para ela, é apenas uma estagiária"
E não funcionavam. As cardíacas massagens. A química infalível. As malditas maquininhas faziam pip, pip, pip. E nem sequer estavam ligadas ao morto!
Alguém abriu uma porta. Com um estrondo. E dela saía um vapor quente e asfixiante. Era uma sauna? E dela saiu como que um gordo cozinheiro, maldizendo numa mistura de italiano e espanhol. Suor escorrendo, os cabelos grudados na testa: "Porca pipa. Cáspita. La vendetta és uno manjare que vá biene cruo. Maledetos!". E os enfermeiros tentavam afastá-lo. Fechando a porta.
Óculos que embaçavam.
Arrancou-os.
E a despeito de todos os esforços. De todo o sangue e suor.
Ainda estava MORTO.
O desgraçado.
Ha. Ha. ha.
"Não. Não" Ele gritou, num súbito arroubo cinematográfico, perdendo a calma, batendo no peito do morto, com um punho, com as duas mãos. Deseperando-se. Ou melhor. Esperando. Esperançoso do fracasso.
O desfibrilador. A satânica invençãozinha de dar choques.
Estava nas suas mãos.
OhhhhhH!
Todos olhavam.
"Afastem-se"
E nada.
Ou melhor. Alguém não se afastou e agora contorcia-se no chão. Escumando pela boca. Os olhos virando para trás. os outros tentavam acudi-lo.
"Afastem-se".
Nada.
Imaginou o que aconteceria. Se desse um choque no saco, ou na testa do indivíduo. E este tinha marcas de estrangulamento no pescoço. Um crime passional?
"AFASTEM-SE!!!"
E quando já não esperavam mais nada.
Os olhos se abrem.
E ali estava um olhar de reconhecimento e horror. Um horrível reconhecimento. Um pequeno conhecimento do Horror. Com os sintomas clássicos. Pupilas contraídas. O intestino se aliviando. Olhos bem abertos, veias, petéquias, o dedo fraco e trêmulo apontando para...
A boca fraca demais para regurgitar um nome "Hmmm... hmmm."
O salvador:
O rosto vermelho, se contorcia num esgar, num riso forçado. E não era riso: futilmente tentava esconder o choro. Quente. Ejaculou, com a boca torta. Baba, suor e lágrimas:
"Seu FILHO DA PUTA!", e continuou, com a voz rouca, "Olha pra mim! Olha pra mim, desgraçado! Eu te trouxe de volta do Inferno...".
Arrancou a máscara cirúrgica e atirou no chão. Pausa.
"Só pra ter o prazer de te matar. DUAS VEZES!"
Retirando de dentro do casaco, um instrumento metálico, girou tambor, engatilhou, e todos olhavam para ele, admirados com seu poder.
E tudo terminou num orgasmo de miolos, sangue e pólvora, de expostas fraturas e globos oculares. Oculares testemunhas do prazer. Olhando para o nada, e girando como confetes, no ar.
Seguido pela paz. Do dever cumprido.
Pela doce e vermelha paz.
Pós coito.
O FIM.
PS: O Raoul é insano.
Voltei de viagem, mas esta foi apenas uma passada rápida.
Este é um conto bem antigo meu...
Estou curioso para saber no que isto vai dar.
Morte.



