quinta-feira, 29 de maio de 2008

Experimental

Não havia nenhuma sirene. Naquela noite abafada.

O carro freou bruscamente, deixando marcas de pneu no asfalto.

Abriu a porta. E saiu gritando: "Ajuda", "Ajudem", "Aqui".

Na parte de traseira, alguém estava morto.


A princípio ninguém ligou. E por que ligariam? Por que alguém daria a mínima? Então ninguém deu.


Só alguns poucos daquele amontoado sujo e desdentado. Aquelas pessoas tão fétidas que os outros preferiam esquecer que elas são, de fato, PESSOAS. E não que algum dia foram. Elas, teoricamente, ainda são.

Saindo da multidão. Que se esparramava e caía, na sarjeta, e que gemia, e rastejava. Da multidão cariada e esquecida.

E uma delas, uma velha senhora, mancando, com uma visível lepra, ou cancro que lhe corroía pernas, flores avermelhadas, arroxeadas, de pele, brotando aqui e acolá. Ramalhete de dor e vermes. Segurando nas mãos calejadas - e sem um dedo - um papelzinho roto com um número, como se fora um talismã.

"Dotô. Chegou minha vez?"

Ele parou por um instante. Limpou o suor do rosto. Olhou em volta, sem saber para onde. Enquanto traziam uma maca, não se sabe também de onde. Daquelas com rodinhas.

E colocou a mão no ombro da senhora, os olhos cansados e fixos nele, tranquilizando-a:

"Tua hora vai chegar"

E depois, sem tempo para olhar para trás:

Cruzando as portas do hospital. Que fecharam-se rapidamente às suas costas. Como que para evitar uma súbita contaminação.




Correndo.

Correndo.

E girando.

Girando e correndo.

Pelos corredores de luzes hesitantes.




O que daria a ele o direito de entrar? E não aos outros? Que sublime mistério era este. Seria a sua convicção? Seu desespero? Não se sabe. Estava bem vestido.



Uma porta a sua frente escancarou-se de repente.


Vislumbrou alguém. Uma mulher, pernas abertas, o braço pendendo para fora da cama, preso a alguns tubos enrolados. As pernas abertas, numa obscena e imunda explosão. Como se alguém tivesse introduzido uma granada. Uma pequena granada. Em sua vagina.


Um médico, segurando de ponta cabeça uma boneca disforme, sangrenta e roxa. Que não era uma boneca, era um bebê. Os beicinhos tortos. Os bracinhos moles Os olhos fechados e mortos.


E o médico chorava copiosamente. E balbuciava, espumando pela boca: "O bebê não chora..." "O nenê não CHORA!"

E prosseguiu introduzindo um dedo no pequeno ânus. Pra ver se conseguia alguma reação. QUALQUER reação.

Mas ELE nem prestou atenção nisto. Nem quando o médico pegou aquela trouxinha mole. Aquele pedacinho de gelatina mole e podre e roxíssima. E segurando por uma perninha, começou a batê-la violentamente contra um balcão. Como um açougueiro amaciando um pedaço de carne.

E viu muito menos, quando só depois disto, um ou dois enfermeiros tentaram impedir o médico, e este, chorando como uma histérica, enrolou-se no chão, em posição fetal e começou a chupar o dedão. Com as luvas sangrentas.




Não viu porque já estavam:

Correndo.

Correndo.

E girando.

Girando e correndo e cantando.

Pelos corredores de luzes faiscantes.





Um dos que corriam ao seu lado. A maca, desviando miraculosamente de dezenas, milhares de doentes que andavam para lá e para cá, como zumbis. Esperando o colapso profano de seus corpos atordoados. Falou:
"O médico de plantão... enlouqueceu."

"Eu sou médico" - disse o homem.

"E eu também" - riu o faxineiro, que corria ao lado.


Alguém poderia ter duvidado. Pois ele estava bem vestido. Paletó e gravata. Mas não estava vestido de branco. Mas o hábito não faz o monge. Dizem. Então por que todo maldito médico se veste de branco?




E à corrida se juntaram duas cadeiras de rodas. Com dois velhos. Um paralítico. A sonda balançando vigorosamente e espalhando um soro turvo , refrescando o rosto dos competidores.



Correndo.

Em círculo.

Pelos intermináveis corredores.

Pelos corredores de luzes alucinantes.


Driblando bandejas, com amostras de fezes, exames de urina, coletas de esperma.

Um "milk-shake" doentio de fezes, urina, semên, sangue e lágrimas.




E alguém poderia facilmente admirar-se.

Se ainda existiam pessoas, assim. Daquelas que fariam qualquer coisa por você. Sem jamais terem te visto. Trocado algumas palavras. Sem nem saber o teu nome. E pensar naqueles que ainda esperavam lá fora. Que não podiam pagar. E imaginar se quando fazem alguma coisa por você. Só o fazem porque estão lucrando de alguma forma com isso. Será que te ajudarão, no dia em que você não puder mais de alguma forma, pagar?


E imaginar se alguns pagam com favores sexuais. Se não seria ético pagar com favores sexuais. Aquele que salvou sua vida. Afinal, se salvaram a sua vida. A SUA PRÓPRIA VIDA. Você então estaria devendo a sua vida. Não?



Até que chegou o inevitável final da linha.

Beco sem saída.



E começou a dar ordens. A voz potente. Firme. Não hesitava. E ninguém desobedeceu.

Colocou luvas, uma máscara. óculos de proteção.

Nem lavou as mãos...


E todos estavam muito agitados. Indo para lá e para cá. Obedeciam as ordens, daquele tão decidido em salvar uma vida. Mas ao mesmo passo, pareciam não entender muito bem o que era ordenado.

E o que o maldito faxineiro. Um senhor negro, magrinho. Estava fazendo lá???


Falava alto. Ordenando o caos.


E uma enfermeira olhava para ele. E ouvia a voz, máscula, decidida. E viu o rosto, e ocorreu-lhe que era tão bonito que podia muito bem ser homossexual. Embora uma coisa não tivesse nada a ver com outra, não é? E era forte. Alto. Talvez um pouco grisalho demais. E sentiu uma forte atração sexual por ele.

Esqueceu-se até mesmo que era mãe. De dois pequenos e cruéis diabinhos. E esqueceu-se que era casada. E esqueceu-se até mesmo que não era tão atraente assim. Uma a mais. Na multidão. E esqueceu-se como todos esquecem. Sem remorsos. E seu olhar estava fixo no dele. E sentiu um calor. E queria tocar os próprios genitais. E esfregá-los. E sem perceber, já o estava fazendo, por cima das roupas.

Olhos fixos no dele.

E ele arriava as calças, retirando um enorme membro, rijo, pulsante, enquanto ela subia na maca. Pip. Pip. Pip. Faziam aquelas maquininhas infernais.

E a possuiu ali mesmo, em cima do morto. Os peitos moles, pulando para cima e para baixo, com as rápidas investidas. Com todo mundo olhando. O faxineiro, se masturbava ali, com um sorrisinho cínico nos cantos dos lábios.

E ela quis que ele colocasse o estetoscópio, para ouvir o pulsar de seu coração.

E apenas quis.


E imaginou.


Talvez. Porque nada daquilo aconteceu.


Eram apenas cancerígenos sonhos. Devaneios e alucinações.

Metástases de ilusões.


Ele apenas falava cada vez mais alto com ela. Para que buscasse a epinefrina, 500 cc., ou a norepinfrina, ou as endorfinas. Loucas anfetaminas, litros e litros delas, louca adrenalina.

Ao que outra enfermeira, mais experiente, veio e aplicou as injeções corretas no morto. Dizendo:

"Não ligue para ela, é apenas uma estagiária"




E não funcionavam. As cardíacas massagens. A química infalível. As malditas maquininhas faziam pip, pip, pip. E nem sequer estavam ligadas ao morto!



Alguém abriu uma porta. Com um estrondo. E dela saía um vapor quente e asfixiante. Era uma sauna? E dela saiu como que um gordo cozinheiro, maldizendo numa mistura de italiano e espanhol. Suor escorrendo, os cabelos grudados na testa: "Porca pipa. Cáspita. La vendetta és uno manjare que vá biene cruo. Maledetos!". E os enfermeiros tentavam afastá-lo. Fechando a porta.


Óculos que embaçavam.

Arrancou-os.


E a despeito de todos os esforços. De todo o sangue e suor.
Ainda estava MORTO.
O desgraçado.
Ha. Ha. ha.



"Não. Não" Ele gritou, num súbito arroubo cinematográfico, perdendo a calma, batendo no peito do morto, com um punho, com as duas mãos. Deseperando-se. Ou melhor. Esperando. Esperançoso do fracasso.



O desfibrilador. A satânica invençãozinha de dar choques.

Estava nas suas mãos.

OhhhhhH!

Todos olhavam.

"Afastem-se"


E nada.

Ou melhor. Alguém não se afastou e agora contorcia-se no chão. Escumando pela boca. Os olhos virando para trás. os outros tentavam acudi-lo.


"Afastem-se".


Nada.


Imaginou o que aconteceria. Se desse um choque no saco, ou na testa do indivíduo. E este tinha marcas de estrangulamento no pescoço. Um crime passional?


"AFASTEM-SE!!!"


E quando já não esperavam mais nada.



Os olhos se abrem.


E ali estava um olhar de reconhecimento e horror. Um horrível reconhecimento. Um pequeno conhecimento do Horror. Com os sintomas clássicos. Pupilas contraídas. O intestino se aliviando. Olhos bem abertos, veias, petéquias, o dedo fraco e trêmulo apontando para...
A boca fraca demais para regurgitar um nome "Hmmm... hmmm."


O salvador:


O rosto vermelho, se contorcia num esgar, num riso forçado. E não era riso: futilmente tentava esconder o choro. Quente. Ejaculou, com a boca torta. Baba, suor e lágrimas:




"Seu FILHO DA PUTA!", e continuou, com a voz rouca, "Olha pra mim! Olha pra mim, desgraçado! Eu te trouxe de volta do Inferno...".




Arrancou a máscara cirúrgica e atirou no chão. Pausa.




"Só pra ter o prazer de te matar. DUAS VEZES!"




Retirando de dentro do casaco, um instrumento metálico, girou tambor, engatilhou, e todos olhavam para ele, admirados com seu poder.

E tudo terminou num orgasmo de miolos, sangue e pólvora, de expostas fraturas e globos oculares. Oculares testemunhas do prazer. Olhando para o nada, e girando como confetes, no ar.

Seguido pela paz. Do dever cumprido.

Pela doce e vermelha paz.

Pós coito.

O FIM.

PS: O Raoul é insano.

Voltei de viagem, mas esta foi apenas uma passada rápida.

Este é um conto bem antigo meu...

Estou curioso para saber no que isto vai dar.

Morte.

Um comentário:

Lucio Engels disse...

Bravíssimo, meu caro.